COSTURO O PASSADO COM MEMÓRIAS FUTURAS
Este trabalho nasce de um gesto que antecede o próprio fazer artístico: o presente de um tapete de fuxico dado por minha avó Maria Gonçalves da Silva. Recebê-lo despertou em mim o desejo de criar uma intervenção que atravessasse essas temporalidades familiares, reunindo fotografias, documentos, cartas amorosas enviadas à minha mãe. Pequenas relíquias que sobrevivem como testemunhos silenciosos.
Neste processo, outra camada de sentido se abriu: Um luto que me atravessa e que reorganiza, de forma abrupta todas as percepções de tempo. Minha mãe sempre dizia que perder um filho antes da partida dos pais é algo insuportável, uma dor que contraria o curso natural da vida.
Hoje reconheço que, para minha avó, essa perda significa ver partir alguém que ela própria colocou no mundo. A minha dor é a de perder uma mãe; a dela, a de perder uma filha. Experiências que se tocam, mas reverberam em profundidades distintas. Uma filha com quem tinha um laço profundo, pois era na casa da minha mãe que ela sempre encontrava abrigo, conversa, cuidado. Se para mim a perda é inimaginável, para ela é uma dor que fere o próprio eixo da existência.
Ver minha avó fazendo fuxico nesse contexto, repetindo gestos, alinhavando pedacinhos de pano, criando pequenas formas circulares, tornou-se algo além do fazer. É como se, ao costurar, ela buscasse um modo de se sustentar, uma forma de afastar, mesmo que por instantes, a dor que a acompanha. O fuxico passa a ser um gesto de refúgio emocional, um modo de tocar o silêncio que a perda deixou. É uma tentativa de desconectar-se do sofrimento pela via do fazer: lento, delicado, repetitivo, quase meditativo.
Foi então que comecei a perceber como as temporalidades não se sucedem linearmente, elas se entrecruzam, se friccionam, se costuram. O passado que ainda pulsa no presente. O futuro que se anuncia carregando a memória do que foi perdido. Uma dobra na qual o luto, a herança e o afeto coexistem.
Nesse processo, escolhi a argila rosa e o gesso para construir livros-objeto. Materiais frágeis e resistentes ao mesmo tempo, capazes de guardar marcas e sutilezas do processo. Embora resultem em blocos que parecem firmes, há uma delicadeza constante: ao manuseá-los, deixam escapar um leve pó, lembrando que a matéria também carrega sua própria sensibilidade. Esses blocos irregulares refletem um tempo que se reorganiza, feito de camadas que se tocam e se transformam. Dentro de cada livro repousam fragmentos de vida, fotos que permaneceram, cartas que atravessaram os anos, pequenos vestígios de uma história que segue presente.
A capa desses livros-objetos se torna o fuxico. Reunindo o que permanece, guardando o que é lembrança e criando um elo simples entre o que veio antes e o que ainda se desdobra. Ele se torna o ponto de encontro entre três gerações: minha avó, que costura como parte de sua rotina e cuidado; minha mãe, cuja memória segue presente; e eu, que procuro, pela arte, manter essas presenças em diálogo.
É também uma tentativa de construir um fio geracional, Reunir as memórias da minha mãe, o fazer manual da minha avó e a minha intervenção como um modo de aproximar o que parecia irremediavelmente separado sustentado no simples gestos de costurar, guardar, tocar. De criar continuidade num tempo-território sensível onde dor, afeto e lembrança possam coexistir, como se o futuro, antes mesmo de chegar, já viesse atravessado pelo passado e pelas ausências e afetos que ele carrega.
Nesse processo, penso também em artistas como Sonia Gomes, que reinventa tecidos carregados de histórias, afetos e trajetórias, transformando retalhos em esculturas que mantêm viva a memória dos corpos e das experiências que os atravessaram. Ela mostra que a matéria guardada, quando manipulada, se abre para novas leituras, e essa lógica ecoa no meu gesto de acolher o fuxico como capa, como superfície que reúne tempos e afetos.
Lembro também de Megg Rayara, que incorporou em seu vestido vermelho os fuxicos, marcas de pólvora e nomes de travestis assassinadas, costurando denúncia e memória no próprio corpo ao defender sua tese. Esse gesto de vestir a história, de trazer à superfície aquilo que não pode ser apagado, ressoa na maneira como busco aproximar camadas de tempo e experiência.
Ao costurar essas referências às minhas próprias vivências, percebo que o que nos une não é apenas a memória, mas a continuidade dos gestos: a capacidade de transformar materiais simples em espaços de encontro, de preservar histórias enquanto criamos outras formas de existência. Nesse sentido, meu trabalho se insere nesse campo ampliado em que o tecido, o toque e o fazer manual se tornam modos de lembrar, ligar e seguir.
Assim, o trabalho se torna um espaço de aproximação. Um lugar onde posso reconhecer o que se transformou e, ao mesmo tempo, valorizar o que segue presente. Cada livro-objeto guarda algo dessas três vidas que se encontram nas lembranças. E, ao costurar esses tempos, percebo que o que nos une não é só a memória, é a continuidade dos gestos que atravessam as gerações.
PROCESSOS
SEMINÁRIO
PROPOSIÇÕES ARTÍSTICAS DE CONVIDADOS NA DISCIPLINA DE PROJETOS AVANÇADOS EM ARTE TÊXTIL

