PORTFÓLIO
Artista Visual - Vaguelis Silva
Notas do caminho . . .

ESPAÇOS EM COMUM
Carrego comigo este fragmento do ateliê de cerâmica do Deartes/UFPR até a Salvador/BA como um gesto simbólico, uma oferenda ao tempo, afeto e à cidade. Nele, guardo a essência das partilhas, o calor dos aprendizados e o toque dos afetos e das amizades que ali nasceram.
O projeto de extensão "Espaços em Comum: práticas artísticas em cerâmica" é uma iniciativa do Laboratório de cerâmica e escultura do curso de Artes visuais no Departamento de Artes da UFPR, campus Batel/ Curitiba. Coordenado pela profª. Isabelle Catucci (@icatucci.art) e vice-coordenação da profª. Joelma Estevam (@joelma.z.estevam) (DEARTES-UFPR), o projeto recebe estudantes, egressos, professores, artistas e profissionais de diversas áreas para a elaboração e discussão de propostas que envolvam a prática cerâmica como um campo de conhecimento. Viva ao Projeto de Extensão. Espaços em comum: Práticas artística em cerâmica (DEARTES - UFPR).
• Ida ao Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura - ENECULT (UFBA). Organizada pela caravana cultural (UFPR) (@caravanaculturalufpr) pelos alunos do curso de produção cultural da UFPR. Ministrado pelo centro acadêmico de produção cultural (@procuca.ufpr).
XICA MANICONGO
A lâmina corta o véu do esquecimento, instaurando uma memória viva que não se curva diante da opressão. Inserida no largo do terreiro de Jesus a lâmina é mais que um objeto; é uma voz que rompe o silêncio. Onde as ruas carregam memórias de dor e resistência, a lâmina se instaura como um símbolo de poder e coragem. Gravado na lâmina, o nome Xica Manicongo não apenas existe; pulsa, vibrando em harmonia com as batidas dos tambores que ainda ecoam pelas ruas. Instaura-se, assim, numa nova narrativa. A lâmina em cerâmica não é apenas um artefato; é um farol que ilumina as sombras da história, trazendo a dor, a beleza e a complexidade de uma vida que foi, durante muito tempo, invisibilizada. Esse objeto se torna uma oferenda, um ato de reverência àqueles que, como Xica, resistiram e continuam a resistir.
Este objeto é um símbolo de transformação, um marco que guia não apenas as travestis, mas todos aqueles que buscam na arte uma forma de se conectar com suas raízes, de se reconhecer e de se afirmar. A lâmina, feita de cerâmica, matéria moldada pela terra e pelo fogo, reflete a resiliência de Xica, uma mulher que, ao se reconhecer e se afirmar em sua verdade, tornou-se um símbolo de luta e resistência. Que a lâmina de Xica Manicongo continue a se perpetuar pelas ruas de Salvador, da cidade baixa, como uma chama de poder e resistência, inspirando as gerações futuras a nunca esquecerem que suas histórias, suas lutas e suas vidas são dignas de ser celebradas e lembradas.
• QUEM FOI XICA MANICONGO?
Xica Manicongo, considerada a primeira travesti do Brasil, foi uma pessoa escravizada que viveu em Salvador no século XVI e trabalhou como sapateira. Seu sobrenome, "Manicongo," indicava sua realeza no Reino do Congo. Desafiando as rígidas normas de gênero da época, Xica recusava-se a usar roupas masculinas e comportar-se como um homem, o que levou a sua acusação de sodomia e bruxaria pelo Tribunal do Santo Ofício. Condenada à morte por queima pública, Xica foi forçada a abdicar de sua identidade para evitar a execução.
XICA MANICONGO PRESENTE!
• Ida ao Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura - ENECULT (UFBA). Organizada pela caravana cultural (UFPR) (@caravanaculturalufpr) pelos alunos do curso de produção cultural da UFPR. Ministrado pelo centro acadêmico de produção cultural (@procuca.ufpr).

AXÉ PARA TODAS TRAVESTIS
No coração do Pelourinho, Salvador/BA, a instauração da lâmina em cerâmica é uma declaração que ecoa pelas ladeiras de pedra, reverberando amor, luta e poder. É uma afirmação para que as travestis possam se ver refletidas nas cores da cidade, se reconhecerem nas histórias que ela conta, e se orgulharem de suas existências em toda a sua complexidade e beleza. Aqui, onde a história pulsa em cada esquina, cada criação é uma oferenda de axé, uma celebração da vida que transcende o tempo e o espaço. São manifestações que dançam ao ritmo do tambor, exaltando a diversidade e a força das identidades que fazem de Salvador um lugar único.
Que as obras nascidas desse axé sejam faróis, não apenas para as travestis, mas para todos que buscam na arte um refúgio de transformação, de amor e de resistência. Que o axé das travestis brilhe como o sol que banha as ruas do Pelourinho, uma chama de poder e beleza, inspirando e iluminando os caminhos das futuras gerações de artistas. Fragmentos do conjunto de lâminas em cerâmica pintadas com tinta fria na cor vermelha.
• Ida ao Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura - ENECULT (UFBA). Organizada pela caravana cultural (UFPR) (@caravanaculturalufpr) pelos alunos do curso de produção cultural da UFPR. Ministrado pelo centro acadêmico de produção cultural (@procuca.ufpr).

NAVALHAS

Em 2022, iniciei uma jornada de exploração e implementação das lâminas em meus projetos ao longo da graduação. No começo, o que me atraía era o potencial estético e simbólico desse objeto, que trazia uma força singular às composições que eu criava. Com cada novo estudo e experimento, fui percebendo como meu corpo se conectava com esse elemento, o que me levou a refletir sobre o uso popular das lâminas e o estigma associado a esse objeto na vivência das travestis. Essa percepção se tornou o ponto de partida para um aprofundamento em minha pesquisa, revelando camadas de significado que antes passavam despercebidas.
Ao mergulhar mais fundo na simbologia da lâmina entre as travestis, um dos primeiros nomes que emergiu no contexto histórico do uso desse objeto foi a da Cintura Fina que ironizava o conservadorismo de Belo Horizonte entre as décadas de 50 e 80. Nascida no Ceará em 1933, Cintura Fina chegou à capital mineira aos 20 anos, onde construiu sua vida resistindo ao preconceito e às adversidades. Travesti foi alvo constante de perseguições policiais, Cintura se defendia com astúcia com uma navalha, tornando-se uma presença familiar nas delegacias, onde sua coragem em enfrentar ofensas lhe garantiu uma reputação única. Em tempos de desamparo e violência para as populações marginalizadas, ela ensinava outras pessoas a manusearem a lâmina com destreza, transformando a autodefesa em um ato de sobrevivência. Suas memórias e legado foram resgatados pelo professor e pesquisador LGBTQIA+ Luiz Morando na biografia Enverga, Mas Não Quebra: Cintura Fina em Belo Horizonte (2020), que celebra a vida dessa figura emblemática e sua inabalável resistência.
Assim como Cintura Fina já fazia o manuseio da lâmina, durante a ditadura militar, o uso desse objeto começou a se popularizar entre as travestis. Nesse período, essas pessoas eram arbitrariamente presas sob a acusação de vadiagem, conforme o artigo 59 da Lei de Contravenções Penais, como uma forma de repressão e higienização de seus corpos na cidade. Em 1º de abril de 1980, o jornal O Estado de São Paulo publicou uma matéria intitulada "Polícia já tem plano conjunto contra travestis", que registrava a proposta das polícias civil e militar de tirar os travestis das ruas de bairros estritamente residenciais; "reforçar a Delegacia de Vadiagem do DEIC para aplicar o artigo 59 da Lei de Contravenções Penais. Esses eram alguns dos pontos do plano elaborado para combater as travestis em São Paulo, por meio de operações policiais, especialmente comandadas pelo delegado José Wilson Richetti e batizadas como Operação Tarântula" (Relatório CNV, p. 297). Durante esse período , uma tática de defesa dessas meninas para serem soltas ou não serem presas era usar a navalha para se automutilarem. Essa tática baseava-se no medo e no estigma de serem soropositivas, pois nesse período a AIDS era considerada o câncer gay, consequência de uma cruel biopolítica implementada.
Através do jornal alternativo Lampião na Esquina, que, no caso da transexualidade, ainda possui uma história com menor conteúdo, conseguimos absorver fragmentos de conhecimento passado, onde ainda havia confusões identitárias entre a homossexualidade e as travestis. Momentos esses relatados em três casos específicos de experiências trans no jornal: a entrevista 'Dois travestis, uma advogada: três depoimentos vivos do sufoco de dezembro de 1979' no n.19; 'Transexualismo: um julgamento moral' no n.5; e o caso de Verushka no n.10. Lampião na Esquina (1979). Um desses relatos traz Flávia, que lembra: 'E aí falaram: vamos nos cortar todos juntos. Uma dava a gilete para a outra... Já fazia quatro dias que estavam lá; então, se cortavam pra ver se levavam eles pro hospital, porque lá o pessoal tem medo do escândalo e solta elas.'"
É a partir desses dados históricos que a lâmina e a vivência das travestis se tornam únicas na sua simbologia e na potencialidade que este objeto incorpora nas violências e resistências desde antes da ditadura militar. Nesse percurso de reflexão sobre a lâmina e sua relação com o corpo travesti, busco explorar as múltiplas camadas de vulnerabilidade, proteção e agressão – o que pode cortar e ser cortado – o que esse objeto carrega e o significado dessa relação para o meu próprio corpo.







